Fonte: Folha de S. Paulo e New York Times

Cerca dois terços das pessoas enfrentam dores significativas nas costas em algum momento de suas vidas. Um médico pode sugerir diversas alternativas de tratamentos e de terapias. Contudo, um método muitas vezes deixado de lado é a manipulação espinhal, o que pode estar a caminho de mudar.

Para tratamento inicial de dores nas costas, pode ser que tenha chegado a hora de repensar os preconceitos que médicos têm sobre o assunto.

A manipulação espinhal -em companhia de outras terapias menos tradicionais, como aplicação de calor, meditação e acupuntura- parece ser tão efetiva quanto muitas outras das terapias que os médicos costumam prescrever, e igualmente segura -se não mais segura.

A maioria das dores nas costas passa com o tempo, e por isso intervenções que aliviam os sintomas e permitem que o corpo se cure são ideais. Muitas delas podem ser não farmacológicas, como o trabalho executado por quiropráticos ou fisioterapeutas.

Os médicos costumam ser cautelosos quanto à manipulação espinhal (aplicação de pressão a ossos e juntas) em parte porque seus praticantes não são médicos e em parte porque alguns quiropráticos afirmam ser capazes de tratar condições que pouco têm a ver com a espinha.

Os pacientes que sofrem de dores nas costas não demonstram igual ceticismo. Uma pesquisa com eles, entre 2002 e 2008, constatou que mais de 30% dos entrevistados recorreram a tratamentos quiropráticos, proporção superior à das pessoas que buscaram massagens, acupuntura ou homeopatia.

Os pesquisadores vêm estudando indicações que sustentam a eficácia da manipulação espinhal já há algum tempo. Cerca de 35 anos atrás, uma revisão sistemática avaliou as pesquisas então disponíveis -muitas com sua qualidade questionada- e constatou que o procedimento parecia gerar algum benefício à saúde. Duas revisões realizadas em 2003 concordaram, em termos gerais, e constataram que a manipulação espinhal funcionava melhor que um “procedimento simulado” ou placebo, mas nem melhor e nem pior que outras opções de tratamento.

Cerca de uma década mais tarde, uma revisão da Cochrane, uma rede de pesquisadores de saúde, avaliou a literatura disponível e descobriu que 12 novos testes haviam sido conduzidos. A revisão da Cochrane foi menos favorável, e concluiu que a manipulação espinhal não mostrava resultado superior a procedimentos simulados.

Mas de lá para cá, os dados vêm se acumulando, com a realização de estudos de qualidade superior. Recentemente, em relatório publicado pelo “Journal of the American Medical Association”, pesquisadores avaliaram estudos publicados depois de 2011, além dos estudos anteriores.

As indicações de 15 testes controlados com distribuição aleatória, incluindo mais de 1,7 mil pacientes, eram de que a manipulação espinhal causava melhora na dor da ordem de 10 pontos, em uma escala de 100 pontos. Indicações de 12 testes controlados e de distribuição aleatória -que apresentavam sobreposição parcial, mas não completa, com outros estudos- mostravam que, para um universo de 1,4 mil pacientes, a manipulação espinhal também havia resultado em melhoras de função.

Em fevereiro, a revista científica “Annals of Internal Medicine” publicou outra revisão sistemática sobre terapias não farmacológicas e em geral concordou com as conclusões de análises recentes. Com base nessa revisão e em outros indicadores, o Colégio Americano de Médicos divulgou novas diretrizes clínicas para o tratamento não invasivo de dores nas costas. As diretrizes recomendam que pacientes tentem calor, massagem, acupuntura e manipulação espinhal como terapias de primeira linha.

Os únicos fatores negativos quanto ao uso da manipulação espinhal, nessas circunstâncias, seriam seu custo e os potenciais problemas.

Porque temem esses possíveis problemas, alguns médicos hesitam em encaminhar pacientes a quiropráticos ou fisioterapeutas. Mas em todos os estudos sumarizados acima, não surgiram efeitos adversos sérios. É possível encontrar referências isoladas de danos na medula espinhal causados por manipulação imprópria, mas eles são raros e raramente envolvem a porção inferior da coluna.

Alguns médicos se preocupam também com o custo da manipulação espinhal, especialmente porque a maioria das operadoras americanas de plano de saúde não cobre esse tratamento. Tratar-se com um quiroprático custa mais caro do que o uso de medicamentos analgésicos não narcóticos. Mas intervenções mais invasivas podem custar muito dinheiro.

Neste ano, no Brasil, o Ministério da Saúde incluiu a quiropraxia na lista de práticas terapêuticas alternativas e complementares disponíveis no SUS.

Estudos demonstram que, de forma geral, os usuários de medicina alternativa ou complementar gastam menos com suas dores nas costas do que as pessoas que usam apenas medicina tradicional.

Além disso, medicação e cirurgia também podem causar danos, e não se deve esquecer que medicamentos como os opioides, vendidos sob prescrição médica, podem envolver altos custos, especialmente quando usados incorretamente.

Alguns médicos não se sentem confortáveis por, ainda hoje, não ser possível definir de que maneira a manipulação espinhal funciona, na prática, para reduzir a dor nas costas. Também é possível que alguns quiropráticos sejam melhores que outros, e que não saibamos como distinguí-los. Essa preocupação deveria ser temperada pelo fato de que tampouco é sabido como funcionam muitas outras terapias. Algumas das coisas mais tradicionais que são recomendadas tampouco funcionam de forma consistente.

Ainda assim, não há mérito nas afirmações de que a manipulação espinhal funciona para coisas como a cólica infantil, menstruações dolorosas, asma, problemas gastrointestinais e outros problemas. Para a maioria dessas condições, não existem provas concretas de que essa forma de terapia funcione.

Mas dado o curso natural das dores nas costas -ou seja, em geral elas passam não importa o que faça o paciente-, a abordagem ideal é tratar os sintomas e deixar que o corpo se cure. Terapias não invasivas parecem ser suficientes para isso.

Tradução de PAULO MIGLIACCI